sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Santo capsilone.





Na corriqueira balada, olhei em volta, e estranha me senti, eu vi o oco de onde eu estava. Bar da moda, com as músicas da moda, bar lotado de muito vazio, mais uma noite observo o saldo bancário que diminui, o cansaço do dia seguinte que se multiplica. Relevante foi estar com meus queridos amigos, em qualquer lugar, estar com eles vale a pena, motivo para questionar-me ainda mais, então para que ir para um ambiente tão lotado e vazio? Estou tal qual mulher que apanha do marido, reclama e continua com ele, e aqui revelo meu medo de um dia também me esvair, peço proteção aos céus para abençoar meu capsilone e mantê-lo ele bem apertado, vedado, para meu conteúdo não sair.
Outras declarações ficam a cargo do grande Vinícius.



As mulheres ocas
[Vinícius de Moraes]
Nós somos as inorgânicas
Frias estátuas de talco
Com hálito de champagne
E pernas de salto alto
Nossa pele fluorescente
É doce e refrigerada
E em nossa conversa ausente
Tudo não quer dizer nada.

Nós somos as longilíneas
Lentas madonas de boate
Iluminamos as pistas
Com nossos rostos de opala.
Vamos em câmara lenta
Sem sorrir demasiado
E olhamos como sem ver
Com nossos olhos cromados.

Nós somos as sonolentas
Monjas do tédio inconsútil
Em nosso escuro convento
A ordem manda ser fútil
Fomos alunas bilíngües
De "Sacre-Coeur" e "Sion"
Mas adorar, só adoramos
A imagem do deus Mamon.

Nós somos as grã-funestas
Filhas do Ouro com a Miséria
O gênio nos enfastia
E a estupidez nos diverte.
Amamos a vida fria
E tudo o que nos espelha
Na asséptica companhia
Dos nossos machos-de-abelha.

Nós somos as bailarinas
Pressagas do cataclismo
Dançando a dança da moda
Na corda bamba do abismo.
Mas nada nos incomoda
De vez que há sempre quem paga
O luxo de entrar na roda
Em Arpels ou Balenciaga.

Nós somos as grã-funestas
As onézimas letais*
Dormimos a nossa sesta
Em ataúdes de cristal
E só tiramos do rosto
Nossa máscara de cal
Para o drinque do sol posto
Com o cronista social.


* Uma das categorias da Nova Gnomônia, de Jayme Ovalle, que classifica os seres e as coisas em: datas, parás, mozarlescos, kernianos e os onézimos, sendo estes conhecidos "pés-frios". Para maiores esclarecimentos, ver o capítulo [a crônica] "A Nova Gnomônia" em Crônicas da província do Brasil, de Manuel Bandeira.

Nenhum comentário: